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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O BRASIL AINDA TERÁ SOLUÇÃO?

 Todo ato é político. Não se posicionar é um ato político. O silêncio apenas dá lugar ao outro para falar por você. Como disse Martin Luther King Jr.: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Chegou a hora de pararmos de fingir que Flávio Bolsonaro assim como o seu pai Jair, não chegaram onde chegaram porque são bons candidatos, porque são talentosos, inteligentes ou brilhantes.

A gente sabe que isso não é verdade. 

Eles são homens, brancos, Cis, heterossexuais. São medíocres, mas conseguem ter palanque, microfone e audiência. Eles não precisam de inteligência, integridade ou competência para fazer sucesso. 

Políticos como eles surgem e prosperam porque representam aquilo que muitas pessoas querem, pensam e desejam. Refletem o ódio nascido das frustrações, o egocentrismo amargo, o preconceito religioso e contra tudo aquilo que lhe é diferente, o racismo, o sexismo, a misoginia, a LGBTfobia, o classicismo, a violência. Mas eles não fazem sucesso só com os seus pares: homens brancos, cis, heteros, elitistas. Eles também invadem as massas. Sustentam-se na  ignorância de muitos e na desonestidade intelectual de outros. Acham apoio em oportunistas, capitães do mato, o oprimido que se junta ao opressor achando que vai ter um lugar na casa grande. Mas na verdade, eles nunca serão aceitos como membros deles. 

Um aspecto muito triste disso tudo é o uso da religião como forma de manipulação de eleitores. Flávio e os seus cobrem-se de uma falsa moral cristã que se distancia do verdadeiro cristianismo, mas que consegue justificar suas atitudes violentas através de uma visão enviesada e de interpretação conveniente e seletiva da Bíblia. 

Dizem-se a favor da vida e contra o aborto e, no mesmo fôlego, apoiam o acesso fácil a armas, bradam que “bandido bom é bandido morto” e colocam as mulheres em uma posição inferior que é a base para o crescente aumento do feminicídio no Brasil! E eles mesmos acusam, julgam e condenam esses “bandidos”, ao sabor das suas conveniências. Jogam a primeira, a segunda, a terceira pedra sem remorso nenhum. E aplaudem a si mesmos.

Por isso eu digo que as semelhanças entre a Alemanha de 1933 e o Brasil de 2026 são enormes. Nem todos os eleitores de Flávio rezam para pneus, ou desejam a volta da ditadura militar. Eu sei disso. Mas a base sim.

Flávio, se eleito, indicará 4 ministros para o STF. E a intenção é a de indicar ministros que sejam militares. E agora que Jair sabe quem está ao lado deles num eventual golpe, ficará fácil escolher. O congresso eleito é de longe o pior da história. Aliás, eu sempre digo que o pior congresso brasileiro será o próximo. Com a eleição de deputados e senadores que não estão lá para defender as causas do povo, para priorizar saúde, educação, estado forte para os mais fracos, será muito fácil para Flávio desmantelar o que está sendo reconstruído pelo governo Lula após 4 anos de degradação dos serviços públicos. 

A realidade do nosso Supremo é triste como está. Com exceção da Carmen Lúcia, eu nem sei quem deveria estar nesse tribunal. Mas vejam, Alexandre de Moraes entrou no supremo indicado por Temer, com apoio da direita (inclusive dos Bolsonaros), e agora é visto como responsabilidade de Lula. Alexandre concordou com o impeachment de Dilma e com a prisão irregular de Lula. Sei que alianças e brigas nesse país acontecem conforme a conveniência e a necessidade de governabilidade. 

O famigerado Centrão é vendável, FHC, Lula, Dilma, Temer, Jair, todos tiveram que se render. Quando Dilma não se rendeu no seu segundo mandato, ela foi deposta em um golpe desgraçado de impeachment. As ameaças de Eduardo Cunha (então presidente do Congresso e hoje preso) não fizeram a Dilma se render. E mesmo sendo inocentada de qualquer crime, mesmo continuando com a ficha limpa e elegível, ela foi deposta. O Jair, que cometeu inúmeros crimes durante o seu governo, tinha dezenas de pedidos de impeachment na mesa do presidente do Congresso, que nunca pautou nenhum para votação. Por quê? Porque Bolsonaro comprou o Centrão. FHC fez o mesmo e Lula também (já no terceiro ano do seu primeiro mandato ele teve que fazê-lo). 

Flávio começou sua carreira política aos 19 anos, quando estudava direito no Rio de Janeiro (presencial) ao mesmo tempo em que era funcionário (fantasma) de gabinete no Congresso Nacional, em Brasília. Como deputado da Alerj, foi acusado do esquema das rachadinhas, através do seu operador Fabrício Queiroz, que recolhia metade do pagamento de seus funcionários de gabinete. Esquema que não foi investigado porque o seu pai, então presidente, mudou delegados, diretores da polícia federal, usou e abusou do seu poder no cargo, para que nada avançasse contra seus filhos. 

Flávio comprou 19 imóveis em dinheiro vivo, também suspeito de lavagem de dinheiro. Flávio era sócio de uma loja da Copenhagen, no Rio, onde era Páscoa o ano inteiro: faturamento quase igual, muito acima da média nacional, com a maior parte dele em dinheiro vivo (mais um esquema de lavagem de dinheiro)

Flávio homenageou Adriano da Nóbrega com a maior honraria da Alerj, que não pôde receber a medalha já que se encontrava preso (pela segunda vez). Adriano era matador de aluguel profissional, conhecido como o chefe do escritório do crime no Rio, exonerado da polícia militar. E que foi “morto numa troca de tiros na Bahia” após fugir. Foi morto, arquivo morto! Por 11 anos Flávio empregou a esposa de Adriano em seu gabinete e por dois anos e meio a mãe dele. Durante o período em que Adriano já era criminoso conhecido.

Já como senador, Flávio decidiu defender um policial militar que atirou e matou uma menina de 5 anos na porta de casa, que tentou manipular a cena do crime, e que foi apontado pela polícia civil do Rio como o assassino, preso e depois solto para responder em liberdade. Este policial iria a júri popular, mas a intervenção de Flávio, assinando o requerimento para adiar o tribunal e usando do seu poder político, conseguiu manter impune esse policial corrupto e assassino solto mais uma vez. 

Aliás, o escritório de Flávio tem uma preferência peculiar em defender policiais criminosos no Rio. Milicianos. Além de favorecer tais policiais de outras formas, como recentemente divulgado, através de uma emenda parlamentar dele de 199 mil reais para um dos condenados pela morte de Marielle Franco, para “suposta ONG que construiria um campo de futebol, compraria chuteiras e uniformes para crianças pobres”, o que não aconteceu. Mas os 199 mil foram pagos. Com dinheiro público. Através de emenda do Flávio. A um assassino condenado. 

E é o Flávio que fala em melhorar a segurança pública. Menciona as prisões de El Salvador como exemplo. As prisões para onde os EUA estão mandando imigrantes e outros criminosos, prisões que violam todos os direitos humanos. São unidades de segurança máxima com superlotação extrema, isolamento total e regras severas impostas pelo governo do presidente Bukele. Mas quem será que serão os presos brasileiros nesses centros de tortura que o Flávio quer construir no Brasil? O policial assassino de criança que ele defende? O chefe do escritório do crime que ele homenageia? O assassino de Marielle, para quem ele direciona uma emenda parlamentar? O careca do INSS? O Willer Tomaz, advogado com ascensão patrimonial absurda em Brasília, preso pela Lava Jato e depois solto, atualmente alvo de investigações da Polícia Federal, que apuram fraudes e descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS e uso de plataformas de apostas online (como a Blaze) para movimentar e lavar quantias bilionárias? O mesmo que era sócio do Vorcaro em um jatinho que ele usou para “dar carona” ao Flávio e a sua família, numa viagem à Disney. São esses os futuros residentes dessas prisões? Claro que não é isso que Flavinho quer. Bandido bom para ele é bandido amigo! 

 E são tantas outras coisas. A empresa de capacetes Bravo Grafeno, cujo dono é o candidato à Presidência da República e senador Flávio Bolsonaro (PL), divide o mesmo endereço em Brasília com pelo menos 16 firmas de Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, é o garoto-propaganda da marca.

Letícia Caetano dos Reis é a administradora da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, escritório aberto em abril de 2021. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, contador e empresário. Alexandre Caetano dos Reis foi sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", alvo de investigações sobre fraudes e desvios bilionários no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Coincidências que só acontecem com o Flávio! Aliás, mesmo como senador, ele pode legalmente trabalhar como advogado. O problema não é esse! Mas são essas conexões obscuras com criminosos e a defesa de criminosos. Flávio informou à Justiça que usa a renda de seu trabalho como advogado para pagar o financiamento da mansão de R$ 5,97 milhões, adquirida em março de 2021, conforme mostrou a Folha de São Paulo. Ah! E claro que não podemos esquecer de que o escritório de advocacia de Flávio foi contratado por uma empresa ligada a uma consultoria que recebeu repasses do Banco Master. O contrato foi de R$ 500 mil da Contábil Correa, pelo serviço de “assessoria jurídica”, de acordo com uma nota fiscal emitida em 9 de abril de 2025. Menor que o da esposa de Moraes, mas não esqueçamos do filme “Dark Horse”.

O financiamento do filme mais caro da história do Brasil foi feito por Vorcaro. Foram negociados US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na época da negociação), porém o montante efetivamente pago e repassado por Daniel Vorcaro chegou a US$ 12,3 milhões (mais de R$ 65 milhões), divididos em várias parcelas, enviadas a um fundo nos Estados Unidos. Isso porque ele foi preso antes de terminar o pagamento. 

E vale lembrar a sucessão de contradições e mentiras do senador, provável futuro presidente: “quem inventou essa história de que o filme recebeu dinheiro do Master?”, dito a uma repórter quando questionado pela primeira vez. Dois dias depois, confirmou o patrocínio, quando a PF divulgou a informação. “Não tinha nenhuma relação pessoal com o Daniel, apenas profissional, relacionado ao filme”. Aí áudios mostraram a relação de “irmão”, “irmãozão”, “estamos juntos”, etc. na sequência, a visita ao banqueiro preso em domicílio, que ele inicialmente negou, mas depois teve que admitir e mais uma vez disse que era para concluir o assunto do filme.

E a relação com os Estados Unidos? Engraçado que eles se autoproclamam patriotas, mas são entreguistas, querem que o Brasil seja capacho de Trump, para que os seus interesses pessoais sejam atendidos. Trump que vem sendo o pior presidente da história americana, um mentiroso compulsivo, um aspirante a ditador, e que tem isolado o seu país de todos os aliados, do Canadá aos países europeus, e que está condenando o seu país a uma decadência sem precedentes. E é com ele que Flávio quer se juntar, enquanto o mundo todo quer se distanciar. 

Mas vejam bem. Quem diz que vota em Flávio porque está cansado da corrupção, porque Lula é corrupto, ladrão, etc., sabe disso tudo aí. E a verdade é que não votam no Flávio por conta disso. Quem fala que vota em Flávio porque o Brasil vai virar uma Venezuela, sabe que isso não é verdade, o PT governou o Brasil por 18 anos desde 2022 e nunca houve ataques institucionais, interferência na PF, na PGR, ou qualquer movimento que leve o Brasil a uma ditadura. Quem namora com a ditadura e são saudosistas dela são os bolsonaros. 

Eles votam porque se identificam com Flávio e seus aliados em outras questões. São medíocres, e se inspiram na mediocridade dos seus representantes. São preconceituosos, racistas, violentos, misóginos, etc., tal e qual os representantes que querem ter na política.

Assim aconteceu em 1933 com o povo em uma Alemanha frustrada, que sofria com a economia frágil após perder a Primeira Guerra Mundial e que desejava mudança. E mesmo ouvindo os maiores absurdos proferidos por Hitler, mesmo sabendo das conexões obscuras do partido nazista, o elegeu presidente. 

Eu torço muito para que o Brasil não repita esse feito. Os estragos são imensuráveis. Muitos sem volta. Mas talvez seja isso que o povo brasileiro precise. Aprender pela dor. Mas uma dor muito forte. Uma dor que pode matar o seu povo e adiar um futuro promissor para muito muito longe.

Não é hora de brincar com a democracia. Nem hora de se posicionar à direita em um mundo cada vez mais conturbado. 

Ninguém vai convencer eleitor de Flávio a mudar de voto. Ninguém. Porque eles sabem de tudo o que eu disse acima e ainda assim votam e querem o Flávio. Não há debate. Não há discussão saudável. Não há escuta. Seja por ignorância de alguns, seja por desonestidade de tantos.

Se a gente quiser mudar esse destino fatídico para o qual caminhamos, precisamos acolher e conversar com os indecisos, os que votaram em branco e nulo e, principalmente, os que não votaram. Essa é a minha esperança. 

E a conversa não é sobre Lula. É sobre o Brasil. Os direitos. Bolsonaro pai cortou 40% da verba da farmácia popular (criada por Lula) no seu governo. Flávio já anunciou que editará uma medida provisória assim que assumir para fazer um corte de 300 bilhões no orçamento - a maior parte em serviços públicos, incluindo educação e saúde. A conversa é sobre ganho real do valor do salário mínimo (que começou efetivamente no primeiro governo Lula, com aumento acima da inflação), mas que foi interrompido por Temer e Bolsonaro. Voltou a subir acima da inflação após 2023. 

A conversa é sobre os ganhos sociais. Porque podemos falar (e devemos) criticar os governos do PT, mas foram esses governos que tiraram o Brasil do mapa da fome, esses governos que permitiram brasileiros pobres estudarem, esse governo que investiu mais no SUS, esses governos que olharam para aqueles que mais precisam. Não foram perfeitos. Nossa! Muito longe disso. Mas foram melhor que os outros. Ou menos pior se você preferir. E com certeza, nesse momento, é a única salvação para o nosso país.


Atallah Haun

Médico residente no Canadá