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quinta-feira, 25 de março de 2021

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA:

“Essa Gente e outros poemas”: a poética do cotidiano metamorfoseada em um grito de liberdade

Lançamento do livro Essa gente e outros poemas.


“Essa gente” é o poema que determina o ritmo e o lugar deste tão esperado livro de Walmir do Carmo. Com o título “Essa gente e outros poemas” o livro ganha a forma de publicação que muitos de nós, grapiúna, já estamos acostumados a ouvir nas declamações desse ativista político, ecológico e estético. Não temos aqui, portanto, nas mãos, apenas um livro de poemas, um acabamento gráfico de uma escrita que não finda, nem somente uma diagramação formal de sentimentos e ações. Temos, sim, a expressão viva de uma atividade artística marcada pela vida e por tudo o que uma existência sofrida, mas feliz, possui: a capacidade de exprimir de forma simples e direta as dores do outro, o olhar do outro, a cicatriz do outro.
É como um refém da liberdade que o poeta se insinua imaginariamente por entre sopros (p. 18), ilusões (p.19), pássaros (p. 20), e palavras (p. 21) em seus poemas iniciais. O exercício pleno do ser vivo livre e certo das suas possibilidades ganha força logo no começo do livro e se desenvolve, perpassando outros tons durante o acontecer da obra.
Nesse sentido, ele mesmo poderia ironicamente desdenhar deste singelo prefácio, afirmando, quiçá, que isto “É velho, muito velho!” Pois bem, no Poema Velho, Walmir do Carmo presta, assim, a sua homenagem àqueles que serviram [e parecem ainda servir] de farol para o seu barco poético a navegar por entre os mares da vida. É aqui que o poeta revela toda a sua acidez verbal através de uma crítica feroz a autores, gêneros musicais e estéticos, em um evidente jogo de cena, entre contradições e conjunções que se casam sem qualquer problema no texto poético. Assim, depois de perpassar por nomes (de poetas e artistas em geral) e estilos (de arte e cultura), o poeta pode concluir algo aterrador: “Quer saber de uma coisa? Não leia a Bíblia! É velha/ Não reze para Deus! Não peça nada a Deus! Não agradeça nunca a Deus! É velho, muito velho”.
Mas, nem só de crítica estética e social se faz o pão-nosso-de-cada-dia, nos poemas de Walmir do Carmo. O poeta canta ainda a Terra mãe (p. 32), O espírito da mata (p. 33) e brinca com a chegada da TV (p.36) em nossa terra de uma forma lírica e leve, mostrando-nos o quanto de sedutor esse canal de entretenimento e informação possui, afinal, “Visitar pessoa na hora da TV antenada/ é ficar mudo na sala-de-estar/ e correr o risco de sair calado”.
Walmir do Carmo autografando seu livro de poemas.
Notamos, claramente, o tom irônico do bem que se torna um mal no cotidiano da gente.
Outro tema dentro do livro é o lamento. O lamento é aquilo que o poeta mais canta e com ele também as suas dores, as dores da cidade e as dores da vida. E mesmo frente a toda dificuldade e, até mesmo preconceito, afinal, Walmir do Carmo é negro e faz da sua negritude um motivo de orgulho para quem do negro tenta inescrupulosamente arrancar-lhes o sentido e a razão de ser. Por isso ele pode afirmar: “Tem gente que fala mal da gente/ e pensa que a gente não/ sabe os defeitos dessa gente”.
Ser negro não pode ser um mal ou um óbice para este poeta ser lido, cantado e repetido. Ser negro é mesmo o motivo pelo qual ele deve ser lido e recitado em Itabuna [e por entre as vielas dos bairros mais periféricos da cidade], que o poeta, tão cruamente canta e eleva à condição de musa inspiradora.
Sim, Itabuna parece ser a sua maior motivação estética, pois eis nas suas palavras o encanto que ela traz: “Eu gosto de te ver assim:/ ladeada de plantas e belos/ jardins que florescem a cada manhã/ Gosto de te ver assim:/ Sorridente e feliz”.
Itabuna e seus mistérios, Itabuna e suas belezas e desigualdades também é cantada aqui de forma simples e direta. Em muitos dos poemas dedicados aos recantos da terra, que ao poeta deu guarida, notamos o tom de agradecimento [e de denúncia, algumas vezes], a exemplo dos poemas: Gogó da Ema (p. 58), Palmeira Imperial do Hospital Santa Cruz (p. 62), Andanças (p. 64), e Catástrofe Urbana (p. 86). Neste último poema, Walmir do Carmo faz uma verdadeira declaração de amor para a cidade ao vê-la entregue a todo tipo de descaso e, por fim, afirma: “Juro, Itabuna, choro por você”.
Além desses temas, muitos outros visitam a escritura do poeta, no entanto, todo o drama humano no seu fazer cotidiano parece destacar-se dos demais, daí o poeta caminhar sempre só pelo mundo, sozinho numa solidão sem fim.
Portanto, poderíamos dizer a guisa de conclusão para esse singelo prefácio, que o caminhar humano sobre a terra compara-se ao arrastar-se lento e sem rumo de uma pequena traça, afinal, “A traça/ traça o troço/ e destroça/a ideia/ acumulada/ na memória/ Trôpego/ o homem cambaleia/e tenta recompor/ os versos/ da sua ébria poesia”. Essa aparente insignificância de uma traça estabelece o traço definitivo daquilo que ganha vida e lugar da poética cotidiana metamorfoseada em um grito de liberdade, proposta por Walmir do Carmo aqui neste seu “Essa gente e outros poemas”; pois, se somos uma traça, eis, enfim, que somos privilegiados por sermos, sim, no fim, uma traça pensante e poeticamente inserida em um mundo feito de esperança e fé.
Que os leitores, portanto, saibam, na leitura deste libreto de poemas, marcar a diferença entre o humano e uma traça. 
Boa leitura!

(Prefácio do livro por Lourival Piligra)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PARA O DIA DOS NAMORADOS!

Felina

se contorcendo
crua
e abrasadora
a sedução viva
e pungente
saltitando nas nuvens
que é seu trono
brava
e lambendo
ciosa
os destemperos
da pele
açucarada
fugaz
no fluxo do amor
as formas
desconexas
do crime carnal
um vapor
aromatizante
que baila ferino
nas curvas
do seu passeio

Gustavo Atallah Haun

sábado, 1 de junho de 2013

BOM FINAL DE SEMANA!

Grande Vinícius de Moraes!

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

1ª REDAÇÃO NOTA 10 DE 2013


ASSUNTO: POESIA & METALINGUAGEM

QUESTÃO ÚNICA

Faça uma análise de um dos poemas abaixo, levando em consideração os aspectos da metalinguagem estudada em sala de aula.

I

"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres.
Trouxeste a chave"?
(Carlos Drummond de Andrade)

Redação do aluno Gabriel Salles, 2º ano, Colégio AFI:

“Pergunto-me se estou com a chave agora. É uma manhã fria de terça, estou a procurar a chave. Que chave? Não sei. Perguntam-me se a tenho, friamente, sem interesse, honestamente, já não ligam se abro o cadeado, baú, porta ou seja lá o que for. Por quê?
Cada palavra com sua máscara, são minhas escravas, se sou um bom senhor, não sei, e realmente não me importa. Uso-as agora para um poema analisar, decifrar palavras com mais palavras, já não sei se estou a desbravar ou me afogar nesse oceano. Depende da chave.
Linhas vão sendo escritas, mas ainda não dei o que o professor quer, podia estar dizendo ‘este poema caracteriza-se por isso e isso’, chato, prefiro fazer mais perguntas à resposta da pergunta inicial, que respondo perguntando aqui.
Procuro intertextualidade nas palavras, nas minhas e nas de Drummond, procuro a chave.
Preste atenção: penetre no reino das palavras, mergulhe, o poema fala sobre a poesia, preciso dizer mais? Leia-o de novo se necessário, sinta-o, descubra teus segredos e os guarde, tranque com chave.
Eu, agora, sob minha face neutra, impassível, pergunto-te, sem interesse pela resposta (ou pela nota):
Trouxeste a chave?”

COMENTÁRIO

Redação poética extremamente original, autoral, utilizando o próprio poema de Drummond para fazer a metalinguagem, ou seja, respondendo o que foi pedido, mas com criatividade de mostrar no próprio texto.

É uma redação muito superior à média escrita, justamente por sair do lugar-comum, do óbvio, que se tornou ultimamente os textos de alunos absorvidos na ânsia de concursos, vestibulares e Enem.

Parabéns ao autor, o jovem Gabriel. Primeiro dez do ano nas escolas em que atuo, merecidamente!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A FORMA EM OS LUSÍADAS


FORMA

CANTO I

PRIMEIRA ESTROFE

 

 EXEMPLO DE VERSO HERÓICO:

                 
 As/ ar/mas/ e os/ Ba/RÕES/ a/ssi/na/LA/dos           A       
Que/ da O/ci/den/tal/ PRA/ia/ Lu/si/TA/na               B
Por/ ma/res/ nun/ca/ DE AN/tes/ na/ve/GA/dos        A
Pa/ssa/ram/ ain/da a/LÉM/ da /Ta/pro/BA/na,          B
Em/ pe/ri/gos /e /GUE/rras /es/for/ÇA/dos                A
Mais/ do/que/ pro/me/TI/a a/ for/ça hu/MA/na,        B
E en/tre/ gen/te/ re/MO/ta e/di/fi/CA/ram                 C
No/vo/ Rei/no/, que/ TAN/to/ su/bli/MA/ram;            C



CANTO V


VIGÉSIMA QUARTA ESTROFE



EXEMPLO DE VERSO SÁFICO:


«Mas/ já o/ Pla/NE/ta/ que/ no/ CÉU/ pri/MEI/ro         A
Hábita, cinco vezes, apressada,                                         B
Agora meio rosto, agora inteiro,                                         A
Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,                    B
Quando da etérea gávea, um marinheiro,                          A
Pron/to/ co a/ VIS/ta:/ «Te/rra!/ TE/rra!»/ BRA/da.      B
Sal/ta/ no/ BOR/do al/vo/ro/ÇA/da a/ GEN/te,            C
Cos olhos no horizonte do Oriente.                                    C

terça-feira, 26 de março de 2013

SALVE: O AMOR EM SOL MAIOR RAIOU!

Capa do livro.

Muitas coisas já foram ditas sobre poesia. Dos formalistas russos à Escola de Frankfurt, passando pelo estruturalismo e teóricos uspianos, aqueles que não são abençoados com o estro poético tentam, a todo instante, categorizar, armazenar, enquadrar, estereotipar a poiesis em páginas enfadonhas de teoria literária.
Outros, no entanto, privilegiados, têm a oportunidade – ou a bênção – de virem ao mundo com as mentes iluminadas e as mãos criativas, vigorosas. Sem se importarem com a crítica, com os padrões, com os modelos que vigoram no orbe, imaginam, labutam e criam, reluzindo páginas de boa literatura à mancheia.
E o que dizer de um livro que foi escrito de forma mediúnica? É possível? Para aqueles que são leigos, ou que acham que é coisa do Mefistófeles, isso é possível através da mediunidade psicográfica. O maior médium de psicografia planetário foi o brasileiro, eleito o maior de todos os tempos por uma rede de televisão, Francisco Cândido Xavier, o nosso Chico Xavier (1910-2002).
E o mineirinho de Pedro Leopoldo publicou dessa forma 415 livros, de todos os gêneros e gostos. Embora sempre tivesse dito que era como um carteiro, que recebia a mensagem e passava adiante (nunca tendo recebido um real da venda dos mesmos, doando a instituições de caridade os direitos autorais!), notabilizou-se e angariou respeito até mesmo dos adversários da Doutrina Espírita, que ele professava.
Sim, mas por que esse introito todo? Ah, lembrei. Para falar do último lançamento lítero-mediúnico que ocorreu em nossa cidade. Um livro editado pela Editora do Conhecimento, magnífico, escrito única e particularmente com as penas do coração: Amor em Sol Maior! Poesia pura, lirismo consolador, delícia da alma redigida pelo espírito de Antônio de Deus, além de outros por este convidado, através do médium grapiúna Ary Quadros Teixeira.
São trovas belíssimas, livres, sem apegos a formalismos, mas com ritmo e cadência típico dos repentistas nordestinos. O livro nos traz lições como: “É o amor que liberta/Das algemas da dor/E ajuda em festa/A voltar ao Criador”, em Chuva de Luz, página 20. Além disso, mensagens, haikais e poemas em homenagem à Zumbi, à Revolução Francesa e a vários companheiros de jornada embelezam e humanizam ainda mais a obra.
Mas isso não é o mais importante. Vale ressaltar que toda renda do livro será revestida para a construção do Recanto de Potira, Núcleo de Promoção Social, no Bairro Nova Ferradas, em Itabuna, no entorno do lixão. O recanto, em fase de construção, terá atendimento médico, odontológico, fisioterápico e psicológico totalmente gratuitos para a população local. Ainda mais, continuarão a distribuição de enxovais e feiras por seis meses a gestantes carentes, como já vem acontecendo há anos.
É um trabalho digno e honesto, qual de formiguinhas incansáveis, porém que vale a pena a participação da sociedade.
Através da compra de um simples livro, todos estarão salvando vidas! Vidas destroçadas pelo establishment, relegadas à própria sorte, esquecidas pelo capitalismo predador, e que dependem somente da compaixão alheia.
* Gustavo Atallah Haun é professor, formado em Letras, UESC, e ministra aula em Itabuna e região. Escreve para jornais de Itabuna, Ilhéus e edita oblogderedacao.blogspot.com (g_a_haun@hotmail.com). É maçom, da Loja Acácia Grapiúna.

PENSAMENTO DO DIA: