terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A VERDADE SOBRE OS CORONÉIS




Adeir Boida de Andrade
Engenheiro e Cacauicultor

            Começo por alertar aos leitores que não vou adentrar pelo mundo da ficção, como se poderia presumir da leitura do título. Faltam-me o talento e o conhecimento deste mundo mágico dos “Coronéis” do cacau e seus herdeiros, com suas farras homéricas nos velhos cabarés de Ilhéus. Herdeiros perdulários e incompetentes estão em todo lugar, mas é realmente instigante constatar como a ficção regional- que colocou o cacau no simples papel de coadjuvante ou cenário - se sobrepôs à verdadeira história da região cacaueira da Bahia.
Em 1831 o Regente Diogo Antonio Feijó criou a Guarda Nacional (extinta pelos militares em 1922, após a Proclamação da República) como braço do Estado para garantir a segurança e a ordem. A Instituição militar chegou a contar com 600 mil homens, mas não conseguia cobrir todo o território deste imenso continente chamado Brasil. Para os rincões, foi então adotado um modelo criativo, capaz de assegurar o equilíbrio entre a anarquia e a tirania: a concessão de um título militar a um dignitário local, normalmente um bem sucedido produtor rural com renda superior a cem mil réis; homem que desejasse um título, que não quisesse ser chamado apenas de “Sinhô”! Rico, mas iletrado, o sujeito recebia o título de “Coronel” e inflava o peito, passando a entregar ao império a sua contrapartida: cuidar da segurança pública na sua área. E, o Coronel da época cumpriu muito bem a sua missão, ao seu modo e ao seu tempo. Com a inevitável marca da tirania, soube controlar a criminalidade, deixando-a em níveis melhores que os atuais!
Consta que em regra, o Império não repassava sequer recursos para armamento e fardamento da “tropa”, composta pelos famosos e fiéis jagunços. Uma solução brilhante, sem gastar um único centavo do dinheiro do contribuinte do Império! Coronéis ficaram famosos nos engenhos e plantações de cana-de-açúcar do Nordeste, e nas lavras de pedras preciosas das Chapadas. O mais famoso Coronel da Bahia e, quiçá do Brasil, não estava na região cacaueira, mas na Chapada Diamantina. Horácio de Matos. Ele reinou em sua região por duas décadas e, no comando de um exercito de jagunços, enfrentou diversas batalhas e lutou de verdade contra a chamada “Coluna Prestes”, até ser covardemente assassinado com 3 tiros pelas costas em 1931. O seu juramento em 1912 é lapidar, e serviria de exemplo para muitos dos políticos atuais:

Não humilhar ninguém, mas também nunca se deixar humilhar por quem quer que seja;
Não roubar jamais, sejam quais forem as circunstâncias, nem permitir que alguém roube e fique impune;
Ser leal com os parentes e amigos, protegendo-os sempre;
Ser leal com os inimigos, respeitando-os em tempos de paz e enfrentando-os em tempos de guerra;
Não provocar, nem agredir, mas se for ofendido, colocar a honra acima de tudo e reagir, porque de nada adianta viver sem a dignidade.

Patentes da Guarda Nacional foram concedidas mesmo após sua extinção em 1922, como ocorreu com a patente de “Capitão” concedida ao mais sanguinário bandido da época, o Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), numa negociação protagonizada pelo então Dep. Federal Padre Cícero Romão Batista. O famoso bandido foi anistiado pelos seus crimes pretéritos e recebeu farto armamento e munição, tudo para combater a Coluna Prestes. Ele descumpriu o acordado, e prosseguiu em sua carreira de crimes bárbaros até ser morto em 1938, sempre ostentando a sua patente de Capitão, curiosamente presenteada pela República. Um Oficial que desonrou a classe!
Curiosamente, a atribuição de patentes militares para dignitários civis não foi uma exclusividade do Brasil. Relendo a história de Samuel Colt (1814 - 1862), o inventor do revólver e criador da famosa marca de armas de fogo, nunca foi militar. Mas recebeu do Estado americano de Connecticut em 16 de maio de 1861 a patente de Coronel da força militar estadual. E usou este título até o final da sua vida, assinando sempre como "Cel. Colt", o que facilitava a comercialização de seus produtos. No Brasil os revólveres eram chamados de "Colt cavalinho", devido ao logotipo de um potro (colt) que está associado a todas as armas da marca.
Chegamos finalmente aos “Coronéis” do cacau, onde parece que muitos produtores eram assim denominados, sem que possuíssem de fato o título militar. Na região, o título virou simples sinônimo de homem próspero, preocupado apenas com a sua segurança pessoal e patrimonial, atribuição básica dos seus poucos jagunços. Ficaram famosos apenas na literatura dos grandes escritores aqui nascidos. É claro que eram homens ricos. Mas não podemos esquecer que toda riqueza é relativa.
Imaginem Coronéis do império, sem escravos! E, escravos nunca foram empregados na lavoura cacaueira baiana. Imaginem Coronéis cujas posses seriam desprezíveis se comparadas com o patrimônio dos chamados “Barões do Café”, com suas fazendas imensas, com até 600 escravos, na região do Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro. Os Barões do café sustentaram o Império e forjaram toda a riqueza e crescimento econômico do Estado de São Paulo. De tão ricos, dispensavam as patentes militares. Frente a eles, os "Coronéis do Cacau" seriam considerados uns pobretões, uns falidos!
Mas o leitor não deve ficar triste. O cacau tem, sim, um grande e milionário magnata: Milton Snavely Hershey1 (1857-1945), que não teve filhos e aparece na foto rodeado por crianças órfãs. Ele está para o cacau e chocolate assim como Henry Ford - seu contemporâneo - está para o mundo dos automóveis. Nasceu na Pennsylvania, Estados Unidos, e foi o responsável pela popularização do chocolate. Hershey teve milhares de empregados, para os quais construiu uma verdadeira cidade (Hershey town) com escolas, bancos, igrejas, hospitais, hotel, clubes, zoológico, bombeiros, etc., tudo em torno da sua então maior fábrica de chocolate do mundo. Em 1926 seus 8.000 acres (3.200ha) de pastagens forneciam mais de 220 mil litros de leite por dia para a fábrica, que processava 23.000Kg de amêndoas de cacau, também diariamente. A operação chegou a incluir plantações de cana-de-açúcar, usinas e ferrovia, em Cuba.
Hershey town recebe hoje cerca de 2 milhões de turistas por ano, e é um grande destino para quem ama cacau/chocolate. Por enquanto, é a única cidade do mundo onde a avenida cacau cruza com a avenida chocolate, e as ruas secundárias recebem o nome dos portos de onde provinham suas amêndoas de cacau: Caracas, Granada, Aruba, Trinidad, Ceylon, Java e Pará.

[1] Sophie D. Coe & Michael D. Coe. THE TRUE HISTORY OF CHOCOLATE. Thames & Hudson. Second Edition. 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário