quarta-feira, 27 de junho de 2012

A TÉCNICA DA DESCRIÇÃO

A DESCRIÇÃO

A descrição se caracteriza por ser o “retrato verbal” de pessoas, objetos, cenas ou ambientes. Nela, são trabalhadas as imagens, o que permite uma visualização do que está sendo descrito.
Uma boa descrição não deve resumir-se a uma simples enumeração. É fundamental captar o traço distintivo que diferencia o ser descrito dos demais.
A descrição de pessoas  deve, além dos traços físicos, ressaltar os traços psicológicos para que se tenha um “retrato” mais completo da pessoa descrita.
Na prática, é difícil você encontrar um texto exclusivamente descrito. O que comumente ocorre são trechos descritivos, inseridos em um texto narrativo ou dissertativo. Por exemplo, em qualquer romance (que é um texto narrativo por excelência), você perceberá várias passagens  descritivas, seja de personagens, seja de ambientes.

“ Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa,a  tese da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro Dágua, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoda, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida.” (Amado, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua)


A DESCRIÇÃO SUBJETIVA

Muitas vezes, ao descrever um ser, não nos limitamos a fornecer ao leitor um retrato exato e fiel. Podemos passar-lhe um ponto de vista pessoal daquilo que descrevemos, produzindo, dessa forma, uma descrição subjetiva.
Essa visão pessoal do personagem, carregada de juízos  de valor, não deve ser considerada um defeito, pois, na descrição, não devemos nos limitar a fornecer ao leitor um retrato frio e sem vida daquilo que se descreve – se asism  fosse, a descrição seria uma simples fotografia. É necessário, portanto, ir além do simples retrato, isto é, transmitir ao leitor uma visão pessoal ou uma interpretação a respeito  do que descrevemos.
Ademais, salvo as descrições técnicas  ou científicas, toda descrição revela, em maior ou menor grau, a impressão que o autor tem daquilo que descreve.

“No fim da tarde, quando as luzes se na cidade e os homens abandonavam o trabalho, os quatro amigos mais íntimos  de Quincas Berro D’água – Curió, Negro Pastinha, Cabo Martins e Pé-de-Vento – descima a ladeira do Tabuão em caminho do quarto do morro. Deve-se dizer, a bem da verdade, que não estavam eles ainda bêbedos. Haviam tomados seus tragos, sem dúvida, na comoção da notícia, mas o vermelho dos olhos era devido às lágrimas derramadas, à dor sem medidas, e o mesmo pode-se afirmar da voz embargada e do passo vacilante. Como reservar-se completamente lúcido quando morre um amigo de tantos anos, o melhor dos companheiros, o mais completo vagabundo da Bahia?” (AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua)

A DESCRIÇÃO OBJETIVA

            Na descrição objetiva transmite-se uma imagem concreta e precisa do que se descreve, destacando nitidamente os detalhes característicos, para que a imagem seja o mais próximo possível  da realidade.
            Convém lembrar o que antes foi dito: executando as descrições técnicas ou científicas, é difícil encontrar uma descrição absolutamente objetiva, pois sempre haverá alguma interferência  do autor em relação àquilo que está sendo descrito. O que vai distinguir uma descrição objetiva de uma descrição subjetiva é o grau dessa interferência.
            Na descrição subjetiva, a interferência do autor é sempre maior e costuma ser caracterizada pela emissão de juízos de valor. Já na descrição objetiva, o autor interfere menos, tentando nos passar uma imagem mais próxima ao real, evitando os julgamentos pessoais.             

“ O santeiro, velho magro de carapinha branca, estendia-se em detalhes: uma negra, vendedora de mingau, acarajé, abará e outras comilanças, tinha um importante assunto a tratar  com Quincas Berro D´água.     



ESQUEMA DE DESCRIÇÃO  DE PESSOAS – VARIAÇÃO 1


 TANCREDO: O POLÍTICO DA ESPERANÇA

            Qualquer pessoa que o visse, quer pessoalmente ou através dos meios de comunicação, era logo levada  a sentir que dele emanava uma serenidade e autoconfiança próprias daqueles que vivem com sabedoria e dignidade.
            De baixa estatura, magro, calvo, tinha a idade de um pai que cada pessoa gostaria de ter e de quem a nação tanto precisava naquele momento de desamparo. Seus olhos oblíquos e castanhos  transmitiam confiança. O nariz levemente  arrebitado e os lábios finos, em meio ao rosto arredondado, traçavam o perfil de alguém que sentíamos ter conhecido durante a vida inteira. Sua voz era doce e ao mesmo tempo dura. Falava e vestia-se como um estadista. Era um estadista.
            Sua característica mais marcante foi, sem dúvida, a ponderação na análise  dos problemas políticos e socioeconômicos. Respeitado em todo o mundo pela condição de líder preocupado com o destino das futuras gerações, de conhecedor profundo das questões deste país, colocava sempre o espírito comunitário  acima dos interesses individuais. Seu grande sonho foi provavelmente o de pôr  toda a sua capacidade a serviço  da nação brasileira, tão ameaçada pelas adversidades econômicas e tão abandonada, como sempre fora, por aqueles  que se dizem seus representantes.
            Verdadeiro exemplo de homem público, ficará para sempre na memória  dos seus contemporâneos e no registro histórico dos grandes vultos nacionais.

ESQUEMA DE DESCRIÇÃO  DE PESSOAS – VARIAÇÃO 2


 MARIA, MARIA            

            Quando a vi pela primeira vez praticamente nem a vi. As pessoas, em sua maioria, não costumam prestar muita atenção às varredoras de rua. Mas Maria  parece não se importar com isso, porque também não presta muita atenção às pessoas que passam por ela, uma vez que está sempre olhando para baixo, à procura do que varrer.
           É baixa e magra, como convém a alguém que sempre comeu muito pouco, e sua pele tem a  coloração típica  dos que tomam sol, chuva, mormaço, ou qualquer coisa que não se possa escolher ou evitar. Seus cabelos crespos e negros parece, encolher-se ainda mais, para não sofrerem a ação do vento impregnado de poeira e poluição. Olhos amendoados, também negros, sem brilho: inexpressivos. Com certeza refletem a sensação de que é inútil expressar-se, seja para reclamar de qualquer coisa.  Mas são olhos duros, de quem protesta, pelo silêncio, contra a dor ou simplesmente contra o peso da rotina fatigante, cumprida à risca, para ninguém achar defeito. O nariz levemente achatado e os lábios grossos são a confirmação dos traços da raça. Boca fechada, apesar do muito que teria a dizer. Fechada, como se recomenda aos que desejam manter o emprego, ainda que tão árduo.
            Maria tem habilidades manuais. Quando criança, queria ser costureira de lindos vestidos. Agora quer sobreviver de maneira honrada. Seu uniforme de funcionária da limpeza pública em nada se parece com os vestidos do seu sonho de menina. Ela deixa agora os sonhos para seus dois filhos, porque é a única coisa que pode deixar como herança. Isso é o exemplo da sua luta, da sua esperança que tira do nada.
            Exilada em sua própria cidade, pelo tempo que lhe toma o trabalho, quase não vê a família, mas persiste e, acima de tudo, acredita, pois “quem traz na pele essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida”.*
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* Fragmento da música “Maria, Maria”, de Milton Nascimento. 

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